Eu não estava à espera disto!

A peripécia de ir receber um prémio da AXN WHITE

Mulheres WOW - Talento no Feminino

Tudo começou com uma amiga a dizer-me:

“Íris, tens visto o AXN White? Está lá um concurso que é a tua cara. Tens que te inscrever!!”

Eu nem televisão vejo. 😂

Tinha acabado de terminar a coleção de noivas com a minha amiga Helena Ciano e tinha também material fotográfico novo das minhas peças de filigrana, BodyCast e outros trabalhos. Aproveitei tudo, selecionei o que achava que melhor representava o meu universo e escrevi um texto muito do coração: quem eu era, o que fazia, porque fazia e porque estava a concorrer.

E deixei ir.

Passaram cerca de quinze dias. Nada.

“Claro que não iria ser escolhida..”, pensei.

E deixei o assunto para trás.

Até receber um e-mail a dizer que a minha candidatura tinha sido recebida e selecionada. Respondi, quase a precisar de confirmação de que aquilo era mesmo verdade, a perguntar se tinham recebido tudo corretamente.

Tinham.

E ainda me disseram que eu tinha um portfólio fantástico.

Depois esqueci-me novamente do assunto.

Até ao dia em que estava no meu trabalho normal, noutro atelier de escultura, e recebi um e-mail a dizer que estava convidada para a gala para receber o reconhecimento Mulher WOW na categoria de Fashion Design.

Entrei em pânico.

Comecei a chorar e a soluçar. O meu colega 🫂 só me dizia:

“Íris, por favor, não me caias aqui que eu não sei o que fazer!”

Era tudo ao mesmo tempo: alegria, nervosismo, incredulidade e pânico.

E havia um pequeno detalhe: a gala era no dia seguinte, às cinco da tarde.

Tinha de arranjar viagem para Lisboa, hotel, cabeleireiro, roupa, tudo.

Liguei à minha patroa 🫂, completamente aos soluços. Ela pensou que tinha acontecido alguma coisa grave. Quando percebeu que eu estava apenas a entrar em parafuso porque tinha ganho alguma coisa pela primeira vez, desligou.

Pouco depois ligou-me de volta:

💛“Íris, vai embora, porque tu já não estás aí. Já estás noutro lado.”💛

E tinha razão.

Marquei o cabeleireiro, fui buscar à Helena os corpetes que queria levar comigo, comprei a viagem para Lisboa às dez da manhã e arranjei um hotel.

Ou melhor… achei que tinha arranjado.

A meio da viagem, quase a chegar a Coimbra, recebi um e-mail da Booking: a minha estadia tinha sido cancelada. 😱

Mais uma vez, toca de entrar em pânico, ligar para a Booking, perceber se ia receber o dinheiro, procurar outro sítio rapidamente e tentar não gastar uma fortuna.

Lá consegui outro alojamento, mais perto.

Cheguei finalmente a Lisboa e fui para um pequeno apartamento em Alfama — precisamente o lugar onde tinha vivido em 2008, quando estudei no Chapitô.

Sentei-me um bocadinho. Eram cerca de três e meia da tarde.

Tinha uma hora e meia para me preparar.

Saí de casa de salto alto, pronta para chamar um Uber, e a sandália rebentou. 😱

Voltei para trás.

A única alternativa era o meu chinelo raso.

Era tigresa.

Portanto, estava tudo bem.

Fui de chinelo.

Cheguei ao evento e fui recebida pela Noélia, uma Senhora Espanhola incrível, que tinha sido precisamente quem recebera a minha candidatura e me tinha dito que eu tinha um portfólio fantástico.

Percebeu que eu estava nervosa, ficou comigo, perguntou-me se queria beber alguma coisa.

Bebi um espumante.

Começou o evento.

Bebi outro, e pensei:

“Já estou pronta para a entrevista.”

😂

Conheci a Fátima Lopes, conversámos um bocadinho e, entretanto, fomos chamadas — as vencedoras — para a frente.

Chegou o momento da entrevista.

Eu, com os meus dois espumantes, lá fui.

E correu bem. Acho que falei muito bem.

Talvez tenha sido o espumante...

Até que a Fátima Lopes disse:

“Sabe-se quando é um artista? Quando o artista tem uma identidade própria. E foi isso que eu vi na Íris: uma identidade própria.”

E aí caiu-me tudo.

Eu não estava nada à espera.

Para mim aquelas palavras tiveram um peso enorme.

Porque eu raramente me vejo como uma artista.

Vejo-me mais como uma transformadora de matéria. Alguém que cria, experimenta e mostra o seu mundo interior através daquilo que faz.

Por isso, ouvir alguém com um percurso tão reconhecido olhar para o meu trabalho e reconhecer nele uma identidade própria foi muito especial.

Às vezes, precisamos que alguém de fora nos diga aquilo que ainda não conseguimos dizer sobre nós próprios.

Depois conheci também a mentora da área da escultura, uma pessoa incrível, com trabalhos maravilhosos em mármore.

E fui embora.

Mas não fui logo para casa. Fui ter com uma grande amiga que vive em Lisboa e aproveitei para descomprimir de toda aquela loucura.

No dia seguinte, fui ao Museu Calouste Gulbenkian ver a Exposição Arte e Moda.

Porque, já que estava em Lisboa, tinha de alimentar a cabeça também.

E talvez seja essa a parte que mais gosto de recordar.

No meio de e-mails, viagens, hotéis cancelados, sandálias partidas, espumante, prémios e entrevistas, continuava a ser eu.

A mesma pessoa que cria, que se atrapalha, que corre, que se inspira, que duvida e que, às vezes, precisa de um chinelo tigresa para chegar a uma gala.

Talvez seja isso que significa ser artista.

Não ser uma máquina de produzir obras.
Ser uma pessoa inteira — e transformar aquilo que somos em matéria.